quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Cinzas


O meu pensamento não te quer deixar dormir.
Embrulha-te de admiração, resguarda-te dos lobos-maus e enclausura-te numa mágica pintura.

Não quero casar contigo.
Não quero casar contigo porque não te quero só a ti até que a morte nos separe.
Quero ficar aqui e que fiques aí.
Juntos apenas porque ninguém nos manda.
Juntos apenas por ficarmos bem assim.

O teu corpo, o meu corpo. Dois corpos que se procuram mas sem explicação.
A minha cabeça, a tua cabeça. Duas cabeças que se debatem mas sem exclusão.
Eu, tu. Dois que se mantêm dois e não se tornam um, como a mensagem cliché do amor tenta passar.
Não quero casar contigo.
Não quero casar contigo porque não te quero só a ti até que a morte nos separe.
Quando eu morrer, fico à tua espera.
Se morreres antes, espera por mim.

Para que as nossas cinzas se unam num dois em um que nem a vida nem o casamento nos podem dar.

Num dois em um que, por mais que tente, nem a morte nos separe.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

A Traição Do Ouvido


O ouvido dele já teve melhores dias.
A cabeça ruidosa não o deixa filtrar os seus tão queridos barulhos.
Mas ele não era assim.
Ele distinguia as folhas a passearem no chão. Sabia de que árvore-mãe elas eram. Sabia que elas queriam conhecer outros sítios além do galho e outras folhas que não as suas vizinhas. Sabia que elas não sabiam que depois de se deixarem cair, já não podiam subir para a árvore-mãe nem arranjar mais nenhuma emprestada. Sabia que elas eram apanhadas para serem coladas ou esparramadas até ficarem lisinhas, junto das linhas, quadrados e letras de cadernos ou livros. Sabia que eram calcadas pelas vulgares pessoas ou atropeladas pelos velozes carros. Sabia até que eram varridas e que se transformavam numa mousse de asqueroso lixo.
Ele também percebia de carros.
Ele distinguia o velho carro do carro com poucos anos e do carro ainda mais recente. Sabia bem que os motores assobiavam com tons bem distintos. Sabia que uns arrotavam de malcriados, uns tossiam de doentes e outros cantavam de plena saúde. Sabia quando passava um a gás, de onde a onde, e sempre esperou que descobrissem um a água. Sabia até acertar em alguns modelos de acordo com o comportamento dos motores.
A sua única brincadeira, quando era novo, era exactamente gabar essa sua faceta nos intervalos, tendo os colegas a comprovarem-lhe a veracidade das suas pujantes tentativas adivinhatórias.
À noite era o seu íntimo que lhe dava a comprovação das suas adivinhas. Ele acreditava muito no seu interior, não estivesse o seu ouvido interno lá dentro também. Sabia que nem só as mulheres tinham intuições.
Ele não gostava de mulheres.
Sabia que elas falavam muito e muito mal nas costas. Sabia que elas eram tão falsas que elas próprias se acreditavam nas suas majestosas mentiras. Sabia que as lágrimas delas só deslizavam à superfície e que por pouco tempo choravam pelos mesmos motivos. Sabia até que elas não conheciam o que ele conhecia.
Ele não gostava assim muito de homens.
Sabia que eles não gostavam dele e eram gozões. Sabia que eles sempre pensaram que ele seria maricas. Sabia que eles lutavam pelas mesmas mulheres e se traíam uns aos outros por causa desse tão antigo pecado. Sabia até que eles, ainda menos do que elas, conheciam o que ele conhecia.
Isto porque ele vivia durante o dia e durante a noite, sem um único intervalo.
Vivia, portanto, o dobro das pessoas e até quase o dobro de alguns animais mais dorminhocos que ele bem conhecia.
Ele aprendia mais de noite em casa a escutar do que de dia na escola a estudar.
Ele distinguia o tamanho das gotas da chuva que disparavam em queda-livre contra o chão do seu quintal. Sabia até os segundos da frequência das suas aterragens.
Agora ouve mal, está velho e não tem companhia.
Ele, que até distinguia todos os passos das pessoas que conhecia, agora mal consegue ouvir a campaínha.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

O Concurso


Quando era pequenina tinha ganho um concurso.
Não daqueles concursos de televisão nem passatempos de casa infantis, ganhou um que ultrapassava todos esses e lhe deu o melhor prémio possível. Não Nintendos nem Castelos de Barbies.
O concurso parecia simples.
Encostada a uma cama de hospital com Febre Aftosa em estado avançado, sem defesas e à porta da morte, tinha que aguentar não chorar para ganhar aos outros meninos na mesma situação.
Esteve 21 dias internada e ganhou a todos que entravam, que saiam e que morriam.
No final a equipa que a tratou perguntou-lhe como tinha conseguido, além do milagre da vida, o carrego da dor.
Ela, tímida, sorriu e perguntou o que tinha ganho. Ao que o médico, ditador do concurso, lhe respondeu: "Ganhaste a vida".
Ela, imediatamente, entrou em pranto, sem perceber porque o médico a tinha enganado. Tanto esforço...para nada.
"O que é a vida? Eu não posso brincar com a vida nem às vidas... Quero um brinquedo!".
Por mais que lhe tentassem explicar, só mais pranto lhe conseguiam arrancar.
Depois de deixar o hospital, quando as empregadas foram fazer as camas de lavado, deram com o colchão todo desfeito, por baixo do lençol intacto que camuflou o sofrimento mudo e em vão daquela estranha criança.
A partir desse dia, a criança chorava todas as noites, gritava, esperneava, batia nela própria e sofria de ataques de ansiedade constantes. Um deles foi tão forte que foi parar novamente ao hospital porque tinha sofrido uma queda bastante aparatosa.
O médico que a atendeu foi o mesmo que a tratou e ela, sem que ninguém prevesse, desatou aos murros e pontapés contra o pobre médico com toda a raiva que a movia.
Levaram-na para a ala psiquiátrica infantil. Lá permaneceu 5 meses. Ao final desses meses, sem qualquer tipo de melhoras, deram-lhe alta, receitando-lhe, no entanto, umas consultas de apoio psicológico semanais, até perfazer mais meia dúzia de meses.
O psicólogo que lhe dava as consultas domiciliárias, resolveu voltar a juntá-la ao médico para perceber a sua reacção e se tinha havido melhoras.
Ela, estática, fingiu que ele não estava lá, mesmo quando ele pegou na cabeça dela à força, obrigando-a a olhar nos olhos. Ela apenas os revirou, qual monstro em estado embrionário.
O médico mandou bom-bons pelo psicólogo. Ela deitou-os ao chão e calcou-os um a um. Com muita calma, já curada da raiva.
Os psicólogos rodavam em frustração, alguns até recusaram imediatamente o caso dela que se constava maligno em todo o hospital.
A menina entrou na escola mas não aprendia nada e ficou 3 anos retida. Esteve até um ano inteiro com uma professora de ensino especial e não mostrava ponta de motivação e desenvolvimento.
Desistiram da miúda que tinha há muito desistido dela própria.
Quando se tornou mulherzinha, interessou-se por um dos milhentos psicológos que a aturavam e partiu logo para a acção. O coitado, estagiário, já assustado com aquele horrível quadro, empurrou-a com a sua força de leão. Ela cai desamparada no chão, bate com a fonte numa esquina da mesa da sala, abre-a e de volta ao hospital. De volta ao mesmo médico que a atende.
Ela parecia bem mas passou uma noite em observações. Observada pelo médico que já tinha a hora de saída expirada e continuava lá ao alto. Quando acordou, de manhãzinha, olhou nos olhos dele e ele pediu-lhe desculpa.
Ela saiu daquele hospital aparentemente curada.
Estudou afincadamente o ensino básico e secundário, ganhou menções honrosas e acabou por escolher o curso de enfermagem. Entrou naquele hospital, na ala pediátrica.
Quando reparava em algum caso parecido com o seu, contava a sua história e conseguia que as crianças tivessem a força que ela teve, sem esperarem nada em troca.
Era a enfermeira que todos os meninos queriam ao lado na dor e ela já os anestesiava de cor.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

MalMeQuer


Anteontem ele recolheu um Malmequer.
Desflorou-o com as palavras "Bem-me-quer ou Mal-me-quer" mas não decorou a última palavra dessa lengalenga.
Voltou ao sítio deles e recolheu outro Malmequer mas, sem se aperceber, colheu dois de uma tirada, um caiu, o outro esqueceu-se de o desflorar porque estava atrasado.
Foi a correr para o jardim junto à Escola e esperou que a sua vizinha mais-que-isso saísse.
Mal a avistou, ergueu sem querer o Malmequer e ela veio de imediato ao seu encontro. Parou junto dele e corou quando olhou para o Malmequer que ele trazia na mão. Ele, tímido, estendeu-o e ela agarrou nele com muita precisão. Despedaçou-o e a lengalenga acabou em Mal-me-quer. Rapidamente atirou o restante talo para o chão e calcou-o com o que parecia um misto de raiva e desilusão. Até assim ela era bonita.
Foram juntos a caminho da eira da avó dela, onde era costume trocarem uns beijinhos mesmo juntinho-aos-lábios.
Ao contrário do que ele esperava, ela não lhe tocou na mão todo o caminho e quando chegaram ao local, entretanto só deles, ela não pronunciou nem um grunhido e fintou extremamente bem e com poucas manobras a sua tentativa de beijinho juntinho-aos-lábios.
Quando começou a escurecer foram para casa sem se olharem e quase sem pestanejarem.
Ele passou toda essa noite acordado fazendo um, dois, três e mais alguns retrocessos em câmara-lenta da recusa que teve, difícil de se contentar e superar.
Depois de mais uns tantos retrocessos sem progressos, achou por bem confrontá-la mal ela saísse da Escola para poder, então, servir-se de, pelo menos, uma explicação.
Depois de nada fazer durante todo o dia, esperou, escondido numa das árvores de tronco grosso do lado de fora da Escola, mais de três horas, o toque de saída. O seu coração já parecia milho-quase-em-pipoca dentro do tacho no impasse da espera e na ânsia do reencontro.
Lá estava ela. Ou parecia ela.
Vestido até aos joelhos salmão com pequenas florzinhas.
Não podia ser ela. Mas parecia ela.
Meias pérola mesmo por baixo dos joelhos e sapatos a imitar as bailarinas, rosa-claros.
Parecia mesmo ela.
Na cabeça uma bandolete pérola com um lacinho de lado, rosa-claro. Toda a combinar.
Só podia ser ela. Ele não queria que fosse mesmo ela.
Vinha tão bonita, risonha, sem jeito, tresloucada... Era ela!
Mas...de mão dada com outro tipo.
Um tipo que estudava... Devia ser melhor do que ele e era, sem dúvida, mais bem aparentado.
Depois de um ano em quase-depressão e depois de árdua e sofrida investigação, descobriu que a relação-maravilha e, até então, estável tinha tido origem num desflorar "Bem-me-quer" de um qualquer, perdido no chão, Malmequer.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Mas Não Páres!


Num ápice o meu corpo estremeceu.
Depois de provado, senti que foi uma mistura de frio, arrepio, calor e dor.
E prazer. Esse, em proporção, ganhou. Sem dúvida.
Estou agora a experimentar outra sensação... Espera... Daquelas em que o som que está fora do nosso corpo se torna tão insignificante que desaparece por causa do turbilhão de emoções lá dentro e só lá dentro arremessadas sem ordenação.
Não me consigo concentrar. Espera...Falaste?
Não fales, continua que hoje estou a gostar de espectar.
Aliás, sei que falas mas já não te ouço....Espera...Assim tenho cócegas. Na barriga não, nas pernas não, nos ombros não...Pára!
Já podes continuar. Lábios...Isso são lábios? São molhados, são ásperos, são secos, são macios...Mas não páres!
Que cheiro é este? Cheira a maresia, a pôr-do-sol, a cortiça...O que é?
Ainda bem que não falaste...Estou a desconcentrar-me...
Gosto quando gemes...só te ouço a ti...e cá dentro e...hoje fica aqui!
Dorme cá, pode ser? Mas não páres!
Já estou a confundir tudo, as sensações, as cores, os cheiros, os sons...Gosto quando gemes...só te ouço a ti...e cá dentro...o que é isto?????
Ok, pára...agora está sensível...
Abraça-me para perceber se é real, se estou ou não invisível... Não sinto as pernas, não sinto a barriga e os pés e as coxas...

sábado, 3 de janeiro de 2009

Domingos


O cigarro sempre ligado no mínimo deitado sobre o cinzeiro de cobre.

A secretária a arrotar papéis gatafunhados e a vomitar livros em lista de espera.

Um cheiro a pó com tabaco rasca cobre a casa que só dá guarida ao Domingos.

Irónico ter o nome do dia da semana, para ele, mais detestável.

Além desta casa, estava igualmente na casa dos quarenta, casa a abarrotar de gente que ele não conhece nem tenciona conhecer.

Bem parecido mas propositadamente mal arranjado, só sai de casa para comprar jornal, tabaco e para os necessários almoços e jantares no restaurante do seu condomínio.

Filho de um pai abastado, Domingos nunca precisou nem quis trabalhar e sempre se revoltou com as injecções culturais a que os pais o obrigaram desde cedo. Preferia as vacinas.

Pai escritor e mãe pintora, compareciam a tudo o que era evento cultural com o rebento atrás. Este, de seguida, ainda a mal saber escrever, tinha que entregar na semana seguinte um relatório critorioso e bem elaborado da visita, com direito a classificação rígida após atenta correcção de ambos os pais.

Aguenta até aos vinte e um em casa destes dois e quase a fazer vinte e dois, foge para longe do mundo cultural.
Inicia uma vida nova com amigos novos, televisão a cores e cinema de filmes comerciais. Nem um ano tinha passado quando percebeu que não conseguia manter amizades devido ou aos seus silêncios prolongados ou às suas conversas demais complexas.

Seguiram-se os cigarros, jornais e refeições que serviam de intervalo à leitura desenfreada e posterior escrita empenhada.

Hoje está no sofá. Ao lado, uma linda menina acompanhante de luxo que o acompanha, pela primeira vez, desde o ano em que tentou ser como os outros. O único ano da sua vida em que não esteve em abstenção.

Hoje está no sofá. Ela despe-se, ele retrai-se. Ela ri, ele chora. Ela tenta banalizar o sucedido com falinhas pouco estudadas, ele paga e acompanha-a à porta.

Irónico ter sido acompanhante de uma acompanhante de luxo.

Sentado no sofá decide, então, morrer como sabe viver.

Mas só acaba por falecer aos oitenta e um anos, vítima de um AVC. Embora conhecesse de cor todos os sintomas, foi exactamente por isso que se sentiu feliz pela primeira vez na vida e, se quis deixar morrer.

Irónico o AVC do Domingos ter sido Aversão à Vida Completa. Mas só as iniciais constaram na certidão de óbito do homem que, sem nunca o básico ter aprendido, só soube ler e escrever.

sábado, 27 de dezembro de 2008

Casa da Magia


Lá dentro havia seda, havia algodão e havia linho.

Lá dentro havia ouro, havia prata e havia platina.

Lá dentro havia riso, havia sorriso e havia felicidade.

Lá dentro havia tudo de espectacular e tu não passavas perto da porta.

Nem sequer rodeavas, nem sequer uma ponta de curiosidade e eu roía-me só de magicar como tal seria possível.

Tudo o que toda a gente desejou, em todos os tempos, estava ali. E tu aqui, sem mexeres nenhuma parte de ti.

A explicação estava contigo e mais ninguém. Eras o único da aldeia que nunca tinha sequer espreitado a casa de magia. E não era uma magia qualquer, dessas que são inventadas e nos tapam os olhos, era uma magia real e única.

Estudiosos davam voltas ao que tinham e não tinham para descobrir tal fenómeno mas todos os estudos foram inconcluídos por escassez de dados concretos.

Pedi-te uma vez que fosses lá comigo e, sem resposta, desapareceste durante três semanas.

Pedi-te outra vez que me levasses só a espreitar, com a desculpa do medo e, sem resposta, desapareceste durante três meses.

Perguntei-te, então, se a tal casa teria sido obra tua e, sem resposta, desapareceste durante três anos.

Esta rotina matou-me e os teus afastamentos apunhalaram-me já cadáver.

Já passou um ano desde a tua última aproximação, que recusei, e hoje não sei nada sobre ti. Também fugi. Mas nem a campaínha nem o telefone me contaram mais nada. E eu, cadavér, continuo aqui. Ninguém me leva para a morgue para me fazerem festinhas com o bisturi...

Enquanto espero ou te espero, vou dormir mais um sono de morte.


(Serei, pelo menos, a tua Bela Adormecida?)

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

O Casamento


O sono dela despertou em tons de roxo-funeral.

O sonho tinha-lhe oferecido, de bandeja, violentos seres em formato de perseguição.

O relógio da igreja ainda não tinha contado as 7h, já ela preparava o pequeno-almoço para ele: o mesmo de há 38 anos: sumo de laranja e torradas a verter manteiga. Arrumava o tabuleiro dele e contentava-se com um naco de papo sêco que a padeira acabava de deixar na maçaneta da porta.

Nisto, já eram horas das compras, sempre com as quantias conversadas e todas as contas bem feitinhas, desde dia anterior.

Durante todo o percurso ela não olhava nada nem ninguém de frente. Principalmente ninguém, segundo ele, todos os homens a desejavam e todas as mulheres a odiavam. A parte das mulheres ela acreditava porque a última mulher que tinha tentado um diálogo com ela, tinha-lhe dito, com toda a lata, que ele andava com uma qualquer da vila, o que era impossível visto que se tratava do "seu" marido.

Chegada a casa, lá preparava o almoço, muito devagarinho, para se poupar no gás.

Ele voltava do único trabalho digno que conhecia (sapateiro) e comia, igualmente devagarinho, para não se entalar e fazer bem a digestão, sempre com ela ao alto, não fosse o caso de precisar de algo.

Depois de ele regressar ao trabalho, ela comia bem rápido, sempre ansiando que ele não voltasse atrás, já que esta era a única altura em que ligava um bocadinho a TV, que só se acendia quando o benfica jogava, não fosse tal bocadinho subir a conta da luz que pagavam certinha, sem acertos, há 38 anos.

A tarde dela era dedicada aos arranjos de costura que as suas clientes traziam todas as semanas, umas senhoras ricas com quem ela nunca falava, não fossem elas abusar da confiança.

Seguia-se o jantar no mesmo tom do almoço sem a parte consolativa da TV.

Depois de arrumar a cozinha, era a vez do banho de imersão "da sexta-feira", único dia da semana com direito a banho completo seguido da habitual meia-hora de violação consentida de boca mais muda que tapada.

Ela não gostava das sextas-feiras.

O resto dos dias eram mais calmos, sem banho comprido nem desespero sofrido.

Apenas o silêncio, lado a lado, de um casamento bem conseguido.

domingo, 14 de dezembro de 2008

A Formiga E O Aquecedor


O corpo dela era um formigueiro com formigas famintas que se comiam umas às outras por falta de alimento.

O corpo dele era um aquecedor de alta potência com o termoestato caóticamente desregulado.

Os dois tentavam mas acabavam por evitar apagar a fome no formigueiro e a má regulação do aquecedor.

O medo dos possíveis arranjos desenhava-lhes o cérebro com medos e fobias inexplicáveis.

Depois de programarem metodicamente aguentarem o sofrimento por mais uns tempos, resolveram apagar de vez a fome e o calor descontrolados e, sem mais programações, mantiveram-se irremediavelmente e permanentemente agarrados.

domingo, 7 de dezembro de 2008

A Íris


A Íris era novinha. A Íris era novinha e muito sonhadora. A Íris deixou de sonhar quando descobriu que tinha uma doença terminal.

Havia pouco a ser feito mas era necessário iniciar rapidamente os tratamentos convencionais de combate ao cancro que a Íris recusou terminantemente.

Ela acreditava que era obrigada a seguir o seu destino e se ele queria ser curto, só tinha que lhe dar o braço a torcer.

Todos se revoltaram contra ela mas nada nem ninguém mudou o rumo da sua fatalidade.

A família arrasada e destroçada afastou-se e os amigos incompreendidos eram só dois, mas pelo mesmo motivo, já faziam frete nas esporádicas visitas.

Ela piorava a olhos vistos e não sonhou um único dia em ter a salvação no seu campo de visão.

Numa última tentativa dos pais, um médico-terapeuta foi lá casa.

Depois de muito conversarem e de não tocarem sequer no assunto minucioso, a Íris num tom bastante efusivo disse-lhe que aceitava ser tratada.

A roleta de tratamentos e viagens não parava de rodar, o cansaço e a má disposição tinham vindo para ficar mas a sua crença irrefectida desvaneceu e morreu.

Agarrou-se à vida como uma lapa sem deixar nunca que a tentassem afastar da rocha-mãe.

A Íris está agora curada e casada com o médico-terapeuta que conseguiu multiplicar o seu destino por muitos e muitos anos de felicidade.

domingo, 30 de novembro de 2008

Fábio


Já fazia muito tempo que o Fábio não tinha crises de preconceito com ele próprio.

Muitos anos pensou que era anormal não por ser anão, mas sim, porque tinha visões diferentes de tudo o que pudesse ter opinião.

Quando tinha que comunicar com as pessoas, sentia-se logo enojado e com náuseas. Sabia que aquela possível ligação se partiria assim que ele abrisse a boca. Mas nem percebia porquê. Só sabia era que ficava tão mal disposto que só lhe apetecia vomitar.

A mãe sempre lhe dissera que ele vivia no mundo da inferioridade mas, antes que ele pudesse perceber o que isso significava, já ela estava prestes a deixá-lo entregue ao mundo das grandezas.

Até lá, tudo de pior que pudesse passar à frente dos seus dois guias espetados a martelo em cada lado da cara, era pequeno. Um pequeno tão pequeno que tinha partes a tender mesmo para o invisível.

As coisas boas nunca chegavam para ele e as más eram tão minúsculas que desapareciam se respirasse duas vezes.

A desproporção do seu mundo nunca foi entendida mas até os médicos (que ainda acreditavam em bruxas e fadas) a associaram ao facto de ser anão. Tudo era muito mais pequeno no seu universo físico e, talvez por esse motivo, a parte mental nunca tivesse experimentado sentimentos de nomes conhecidos.

Vivia sempre no trapézio sentado a baloiçar, nunca tentava levantar-se nem nunca caía lá abaixo.

Mas no dia em que a mãe o deixou para ser tapada pelo cobertor da terra, o Fábio, ao contrário do que todas as pessoas julgavam, derramou uma lágrima. Essas mesmas nunca souberam foi que a lágrima não caiu por ela, mas sim, porque era uma manhã fria em finais de Novembro e os seus olhos constiparam-se pela primeira vez.

A partir desse dia toda a gente ficou a pensar que, afinal, ele era normal.

O Fábio anormal cobriu-se bem tapadinho, aproveitando o grandioso cobertor da mãe e, a partir daí, até ele ficou a julgar ser normal, sem nunca vomitar, apenas por ninguém ir lá espreitar.

domingo, 9 de novembro de 2008

Afazeres


Enquanto o granizo caía lá fora, a menina da D. São era novamente a escolhida para um dos senhores de mais idade que procuravam ainda estes afazeres.

Ela não se importava porque os velhinhos eram mais calmos, já sabiam muito da vida e iam perdendo as capacidades de tudo o que rodeia o centro de gravidade. Eram meigos e gostavam muito de falar e também de apalpar. Sabia bem que alguns vinham acompanhados da pílula milagrosa mas ela tentava sempre, a todo o custo, que eles não a tomassem porque já sabia que a noite era toda por conta dessa côr drogada. E ela tinha um namorado em casa à espera dela, contas para pagar, compras para fazer e tinha, obrigatoriamente, de fazer vários turnos por noite para conseguir ficar sem essas dívidas banais.

Gostava mais dos novinhos, aqueles que ainda tinham o invólucro da menoridade. Eram rápidos, não falavam e de uma timidez que mal lhe tocavam. Ela guiava todo o processo sem custo e com algum prazer.

Os dos 30 aos 60 eram os mais problemáticos. Sempre com exigências, grandes investidas, na sua maioria brutos e tratavam-na como trapos e para isso já bastava a sua consciência que fazia questão de fazê-la sentir ainda mais esfarrapada do que isso.

A parte mais difícil era sempre quando fazia o caminho de volta a casa. As réstias de memória de cada noite davam-lhe pontapés e ela não conseguia sequer proteger os órgãos vitais, lembrando-se sempre do seu amor que ainda estava pior.

O namorado, depois do acidente, além de tetraplégico, deixou completamente de falar e mal a avistava, sorria com o eterno amor nos olhos.

Ela nunca lhe contou como conseguia dar conta de tudo, ser uma boa companheira e a melhor pessoa do mundo.

No trabalho, depois de conhecerem a sua história, era a mais requisitada, mais adorada e até mesmo amada. Quantos não foram os que lhe pediram em casamento.

Durante anos andou confusa, com paixões que começavam e acabavam sem que fossem faladas mas o amor foi sempre só um e no dia em que se despediu voltou ainda mais encantada e apaixonada.

Viveram na reforma que dava até para fazerem viagens de avião todos os verões e esperaram, sempre com o mesmo sentimento, até que tivesse de haver caixões.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Carmindinha


A D. Carminda, ou Carmindinha, como lhe chamavam, já vivia há muito tempo no Lar da Santa Casa da Misericórdia.

Já não contava os anos, mas sabia que tinha sido há mais de 10 anos, que a filha solteira a tinha deixado lá uma tarde. Não sabia, porém, se a filha já teria casado.

Na sua eterna inocência ainda achava que as "meninas da porta" nunca a deixaram entrar nas visitas que, concerteza, terá tentado.

A sua vida nesta casa era, então, muito aborrecida. Havia "meninas" para tudo e ela não podia fazer nada. Nem tomar um duche descansada. Berrava com voz tímida todas as vezes: "Assim a pele cai toda. Só quero o meu bidé!" e soluçava engasgada.

Passava todas as noites a pensar que o instante que estava a viver era o penúltimo da vida dela, anseando que o próximo fosse a morte.

Ela era diferente. Não fazia como os colegas que engoliam as "pírulas" todas depois de jantar. Tinha um lenço próprio, que só ela o lavava, e onde despejava toda essa "mexericórdia de porcaria".

Só não percebia porque é que os colegas dormiam toda a noite e ela não.

Mas isto de não dormir era bom, só ela estava presente quando um deles levava a sua hora. Durante a aflição destes, sussurrava "Louvado seja o Senhor" sempre com ciúmes deles por irem primeiro.

No mês passado morreu a "Ti" Alzira das flores, sua companheira de quarto.

Entretanto, logo passados dois dias, entrou o Sr. Alfaiate para a vez dela. Dizem que não havia mais camas e teve que lá ficar.

Ele era como ela de noite. Sempre a falar baixinho coisas que ela não percebia. Ela não se importava porque também não dormia.

De dia ele era muito simpático com as "meninas", até fazia "ginástiques" e via "televison" na sala grande.

Ela ficava sempre no jardim a preparar e a anteceder a momento que tanto esperava.

Há quinze dias que a Carmindinha rejeitava os cuidados das "meninas" porque elas ligavam mais a ele.

Ele, além do mais, não fala com ela e se fala é de noite e agora como ela só tem uma audição, não o percebe. Antes ouvia os grilos a 20 km, para lá do moínho da quinta. Disso ainda se lembra.

O Sr. Alfaiate todas as noites não prega olho à espera da resposta à proposta de casamento que lhe fez na primeira semana, quando entrou. Ela é fina mas não mais do que ele, sabe bem que ela não dorme mas não fala e ele está a perder as esperanças.

Há uma semana que o Sr. Alfaiate se levanta de noite e vem fazer-lhe festas na perna mais doente, fala-lhe de histórias ao ouvido menos doente e aperta-lhe tanto a mão que parece que é isso que lhe anda a afectar as "cruzes".

Ela não se ri mas gosta.

Ontem ele voltou a pedi-la em casamento e ela, sem hesitar, aceitou e disse-lhe, até, que nunca se tinha sentido tão feliz.

Casaram hoje e o Sr. Alfaiate só hoje soube que seria o 6º marido da Carmindinha. O Padre disse-lhe antes da cerimónia. Mas alertou-o que ela não sabe e não se lembra.
Agora já não pensa em morrer.

Antes ele do que ela.

E pela 6ª vez todo o Lar festeja, à custa dela, a bom comer e beber.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Até Ficares Cansado


Ainda falta meia-hora. Não aguento mais... as mensagens, as chamadas para o telemóvel, para casa... C-H-E-G-A!


Que desespero desperdiçado.


Não tenhas medo do que não tens. Tudo pior que possas imaginar não passa por aí porque de mim nunca vais ter o melhor.


Descansa pelo menos 5 minutos para me presenteares com uns poucos minutos de Paz. Não...descansa a vida toda. Ficas bem melhor sem mim.


Só faltam 2 minutos para, supostamente, me encontrar contigo e parece que já sabes que não vou aparecer. Tens razão. Sempre tiveste.


No fundo, acho que sabes tudo o que te ia dizer e não consigo.


Vou fugir para a eternidade de fingir. Fingir que nunca te vejo e que nunca te ouço.


Um dia, quando tiveres mais rancor que ódio, deixas de me amar já que dizes que isso é amor.


E vais ser feliz e eu vou ser mais feliz ainda por não carregar o teu fardo.


Agora...espera até ficares cansado.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

O Senhor


Era um senhor. Um Doutor que gostava de ser senhor.

Um dia, acordou com um aperto no braço, quase igual ao do medidor de tensão arterial quando já não dá para apertar mais, quando o extremo dá sinal de vida, ou seja, nos sufoca de morte.

Acordou e não sabia onde estava nem quem era e não foi por momentos mas sim por minutos que estagnaram.

Pensou que tivesse mesmo morrido depois de tantos pensamentos a flutuar que lhe entupiam a sobriedade que nunca o deixava ficar.

Estava num quarto de hotel que a empresa disponibilizou para os dois dias de férias depois de trinta e seis anos de trabalho sem respirar um dia que fosse. Um dia. Que infeliz seria...

Acordou pela segunda vez e já era o senhor. Refez as malas quase nem desfeitas e esperou no aeroporto pelo primeiro avião para casa. Para casa e para o trabalho. Sem eles não sabia viver.

Foi assim a história do senhor que apenas precisava de um dia como os de sempre. Era feliz sem respirar e quando havia ar só para ele, morria.