sexta-feira, 10 de abril de 2009

Corta A Cena!


Numa das noites em que gozávamos a penumbra magnífica dos nossos corpos, muitas vezes nem suados mas validos, numa altura em que estávamos parados à espera da próxima parada, num momento em que me agarraste a perna como se ela fosse fugir, num segundo em que eu nem pensava, numa fracção de segundo em que um raio te enraizou de fragilidade disseste, com calma, que me querias para sempre.
Eu, estática de corpo e prática de cabeça disse, sem calma nenhuma, para não repetires isso e, de modo a sublinhar a minha decisão, desenhei com maiúsculas um NUNCA MAIS no final da frase.

Ao contrário da minha vontade de me livrar de posteriores puxões e palavrões, ficaste ali, seguraste a minha perna como sempre fizeste e apenas deixei de te sentir.
Não estavas ali e eu também não.

Eu não te queria, tu sabias. Tu já não me querias, depois de proferida a minha fatídica frase, mas não saías dali e não descortinavas os porquês de não seguires com a tua vontade.

A tua raiva de virar a cama, de pontapear-me a cabeça, de cotovelar-me a boca para que eu nunca mais pudesse matar-te com frases descabidas, de cabecear-me a barriga até eu vomitar as tuas frases preferidas, de me torceres toda até me ajoelhar e pedir-te perdão, de me arrancares punhados de cabelo e de me mutilares a cara para mais ninguém conseguir olhar para mim, para mais ninguém me desejar, para mais ninguém se apaixonar, para mais ninguém me amar e, mais importante do que isso, mais ninguém poder ser retribuído nesse tão previsível amor.

Por fim adormecemos estafados de tantos pesadelos acordados e, ao despertar, abraçaste-me com a ternura de nunca porque durante o sono eu te tinha ensinado, de ponta a ponta, o abecedário do amor.

Agora só me quero lembrar das palavras mágicas para se cortar a cena e eu poder fugir deste filme de terror!
!!

quinta-feira, 2 de abril de 2009

KamaSutra Divino


Ele é comerciante. Ela é costureira.
Ele é filho de um homem durão que comia a empregada onde os filhos comiam e a mulher limpava.
Que não se importava com olhos alheios porque afinal estava apaixonado por aquele buraquinho que ainda não tinha espelido filhos. Que afinal era com ela que queria casar. Que afinal espancava a esposa quando esta se emborcava depois de assistir pormenorizadamente a uma sessão de sexo desenfreado em que nunca participava.

Anos passaram, todos se cansaram e os dois amantes lá casaram.
Ele e os irmãos viram morrer a mãe de cirrose. Pequenos e sem dinheiro ficaram. Lá corriam na meta da vida, sozinhos e sem testemunhos para passar.

Ela é uma menina adoptada. Impingida numa adopção forçada à madrasta, conseguida através do prazer fétido do pai com uma qualquer prostituta.
Que afinal a esposa era atrofiada das trompas. Que afinal a esposa lá a foi criando com sopinhas de ciúmes mudos e papinhas enraivecidas em constante cicatrização.

Ela nunca quis conhecer o sangue da mãe barriga-de-aluguer e se pudesse fazia uma transfusão total de sangue da madrasta que, por sua vez, não dava o seu sangue por ela.
Ele nunca mais quis identificar o sangue do pai que milhentas vezes enchia a barriga da amante de abortos consecutivos.

Ele e ela conheceram-se numa idade bonita e na altura devida se casaram.
Deram o primeiro beijo na boca na noite de núpcias e sem travo a álcool.
Programaram o dia da concepção do rebento através das técnicas naturais e das contas da quarta classe, sem erros, tirando a provas dos nove quando ele nasceu precisamente no dia planeado, na data de casamento deles.
Sempre que se tentavam amar sem intenção de procriação, não se tocavam nem se rendiam ao prazer, seguindo sempre as páginas do Kamasutra Divino.

Pessoas que nunca falharam a nada nem a ninguém.
Pessoas que sempre viveram acorrentadas ao sangue que recusaram pertencer.
Pessoas que sempre viveram com o fardo da vergonha dos progenitores, que nunca a tiveram.
Pessoas que hoje dormem em quartos separados e já festejaram cinquenta anos de casados.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Post - Me


O dia em que a namorada-quase-a-sério foi lá casa foi o dia mais complicado da sua vida.
Ele, que nunca tinha exposto a sua segunda realidade a ninguém.
Na primeira, era um jovem-adulto completamente banal, interessava-se pelas mesmas coisas que os amigos e inimigos mas afirmava-se muito diferente deles, sem dar uma única mostra do contrário.
Extremamente sedutor e inteligente tinha as miúdas sempre de olho nele e ele sempre de olho nas notas que só se movimentavam numa escala bastante reduzida, do 19 ao 20.
Foi um universitário feliz até o dia em que a sua recente aquisição quis conhecer a sua casa, num dos todos fins-de-semana que os pais passavam fora.
Ela, quase tão inteligente quanto ele e, depois de rapidamente se aperceber que havia algo que não batia certo, esgueirou-se lá para casa com o pretexto de uma propositada aposta perdida, coberta em jantar caseiro com prazo-término no dia seguinte.
Estava ela quase a finalizar a preparação do jantar e nem sinal dele desde que chegaram.
Surrateira, foi dar com ele a escrever compulsivamente em post-its.
Curiosa da reacção, aproximou-se ainda mais e perguntou onde ele estava. Ele, depois do berro de susto, escondeu tudo e desculpou-se a dizer que estava a fazer a lista de compras.
Iniciado o serão, tudo correu ainda melhor do que o perspectivado.
No final da tórrida noite, ele fechou-se na casa de banho durante quase meia-hora.
Ela, em vez de o chamar, espreitou pela fechadura e deparou-se com ele a gatafunhar mais post-its com uma habilidade nunca vista e estando eles, agora, colados na parede numa ordenação linear.
Ela omitiu aquele episódio de cusquice mas ele suspeitou e antes que a suspeita se transformasse, deixou-a de vez.
Nem ela nem ninguém soube que ele não sabia quem eram as pessoas se não apontasse, religiosamente, cada passo da sua vida nos famosos post-its.
Que ele até se esquecia de esquecer porque a sua memória ia de escassa a nula e só existia porque ele se lembrava dos seus preciosos apontamentos.
Que ele lia qualquer letra e ordenação e as decorava até cerca de 72 horas, sendo por isso que tirava as suas tão invejadas notas.
Que as pessoas mais importantes estavam impressas num caderninho que ele tinha desde miúdo. E que a sua ex-quase-namorada-a-sério era a única mulher que constava nessa relíquia.
Sempre que olhava para o caderno, todo ele era coberto de tudo, menos bem-estar.
Pensou, então, que seria possível esquecer aquele tipo de dores se eliminasse os post-its referentes a momentos com ela e o nome dela do caderninho de miúdo.
O plano resultou excepcionalmente bem.
Até ao dia em que, sem querer, a encontrou.
Sempre que olhava para ela, todo ele era coberto de tudo, menos mal-estar.
E foi aí que, realmente, pensou que seria possível deixá-la... entrar nas suas duas realidades.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Ela e Eles


Ela só tinha um cigarro ou apenas o que restava dele.

Enquanto o tinha na mão, fitava-o demoradamente, saboreava cada puxão, sentia cada expiração como uma massagem profunda na mente e, de olhos fechados, focava-se no prazer imenso que ele, só a ela, lhe oferecia.

Assim que o terminava, atirava-o com desprezo para o chão, mesmo ao lado do muro do jardim que ela mais frequentava. O muro que já tinha as formas das suas nádegas. O chão que já tinha o molde dos seus pés. A imagem que já tinha cada pormenor por ela interiorizado. O único sítio em que ela mais esteve, sem se cansar e sem o deixar fora da sua vida.

Já olhando o chão, procurava com afinco e com manhosidade outras beatas que não as dela. As gémeas -falsas dos seus ex-cigarros.

Encontrava sempre uma ou duas. No lugar que pensava ser só dela. No lugar que, pelos vistos, outros também escolhiam para fumar os seus cigarros.

Não sabia com que periocidade os outros iam lá, mas também não os queria nem podia conhecer, com medo da sua atitude e dos seus pensamentos irreflectidos, filhos dos seus ciúmes inatos.

Ela, que só queria fumar cada cigarro, dia atrás de dia, como se eles fossem os únicos.

E eles, sem saberem a existência dos outros, que também eram só dela, e nem sequer a existência dos outros... dos outros.

Ela, a egocêntrica-mor, que só gostava da sensação de eles só a terem a ela e ela os ter a todos.

quarta-feira, 4 de março de 2009

O Menino - Gaivota


O menino queria ser uma gaivota.
Sem ter para onde ir ou para ir a todos os lados.
Sem ter que se preocupar com hábitos ou apenas criar e seguir os seus.
Sem ter que descer quando lhe mandam ou para subir quando lhe impedem.
Sem ter que se importar com alimentação ou para comer tudo o que os outros evitam.
Sem ter que se encontrar com semelhantes ou para encontrar os que, por acaso, fazem a mesma viagem.
Ele queria ser uma gaivota e esqueceu-se demais do quanto seria bom voltar a ser menino.

domingo, 1 de março de 2009

Cabeça de Fósforo


O corpo ofegante dela já não consegue acompanhar a velocidade estonteante da sua cabeça.

Menina pequenina com cabeça de fósforo.

Faíscas deixam-se arder em todas as rotundas e frentes dos hemisférios do seu imperfeito cérebro.

Isqueiros anómalos tentam acender o rastilho sempre em vão.

Neurónios reumáticos e semi-amputados tentam reaver desesperadamente pernas e braços de todo irrecuperáveis.

Mas, mesmo assim, a menina pequenina com cabeça de fósforo já está quase boa.

Porque cá fora existe um ser que afinal é um nó e que lhe serve mais do que 100 isqueiros que lhe possam aparecer.

E quando o nó dela e o nó dele se juntam, por muitas manobras e queimaduras que tencionem aplicar, não se podem jamais deslaçar.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Tanta Gente


As ondas a lamber a areia com alta tensão de tanto sal.
O sol a metralhar raios nas ondas que se atropelam umas às outras para chegarem primeiro à areia.
As rochas roídas de ciúmes das ondas não tocarem nelas e comerem a areia mesmo à sua frente.
As pombas a calcarem a areia com pezinhos de galinha e as ondas ainda mais ciumentas, cuspindo a sua raiva contra estas.
O muro da praia sem pesos humanos.
Tanta gente nos carros a olhar o mar sem conseguirem ver nada.
Tanta gente com tantos olhos iguais.
Tanta gente com a mesma cor de olhos, com o mesmo formato, do mesmo lugar, do mesmo mundo.
Tanta gente e não está aqui mais ninguém.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Cinzas


O meu pensamento não te quer deixar dormir.
Embrulha-te de admiração, resguarda-te dos lobos-maus e enclausura-te numa mágica pintura.

Não quero casar contigo.
Não quero casar contigo porque não te quero só a ti até que a morte nos separe.
Quero ficar aqui e que fiques aí.
Juntos apenas porque ninguém nos manda.
Juntos apenas por ficarmos bem assim.

O teu corpo, o meu corpo. Dois corpos que se procuram mas sem explicação.
A minha cabeça, a tua cabeça. Duas cabeças que se debatem mas sem exclusão.
Eu, tu. Dois que se mantêm dois e não se tornam um, como a mensagem cliché do amor tenta passar.
Não quero casar contigo.
Não quero casar contigo porque não te quero só a ti até que a morte nos separe.
Quando eu morrer, fico à tua espera.
Se morreres antes, espera por mim.

Para que as nossas cinzas se unam num dois em um que nem a vida nem o casamento nos podem dar.

Num dois em um que, por mais que tente, nem a morte nos separe.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

A Traição Do Ouvido


O ouvido dele já teve melhores dias.
A cabeça ruidosa não o deixa filtrar os seus tão queridos barulhos.
Mas ele não era assim.
Ele distinguia as folhas a passearem no chão. Sabia de que árvore-mãe elas eram. Sabia que elas queriam conhecer outros sítios além do galho e outras folhas que não as suas vizinhas. Sabia que elas não sabiam que depois de se deixarem cair, já não podiam subir para a árvore-mãe nem arranjar mais nenhuma emprestada. Sabia que elas eram apanhadas para serem coladas ou esparramadas até ficarem lisinhas, junto das linhas, quadrados e letras de cadernos ou livros. Sabia que eram calcadas pelas vulgares pessoas ou atropeladas pelos velozes carros. Sabia até que eram varridas e que se transformavam numa mousse de asqueroso lixo.
Ele também percebia de carros.
Ele distinguia o velho carro do carro com poucos anos e do carro ainda mais recente. Sabia bem que os motores assobiavam com tons bem distintos. Sabia que uns arrotavam de malcriados, uns tossiam de doentes e outros cantavam de plena saúde. Sabia quando passava um a gás, de onde a onde, e sempre esperou que descobrissem um a água. Sabia até acertar em alguns modelos de acordo com o comportamento dos motores.
A sua única brincadeira, quando era novo, era exactamente gabar essa sua faceta nos intervalos, tendo os colegas a comprovarem-lhe a veracidade das suas pujantes tentativas adivinhatórias.
À noite era o seu íntimo que lhe dava a comprovação das suas adivinhas. Ele acreditava muito no seu interior, não estivesse o seu ouvido interno lá dentro também. Sabia que nem só as mulheres tinham intuições.
Ele não gostava de mulheres.
Sabia que elas falavam muito e muito mal nas costas. Sabia que elas eram tão falsas que elas próprias se acreditavam nas suas majestosas mentiras. Sabia que as lágrimas delas só deslizavam à superfície e que por pouco tempo choravam pelos mesmos motivos. Sabia até que elas não conheciam o que ele conhecia.
Ele não gostava assim muito de homens.
Sabia que eles não gostavam dele e eram gozões. Sabia que eles sempre pensaram que ele seria maricas. Sabia que eles lutavam pelas mesmas mulheres e se traíam uns aos outros por causa desse tão antigo pecado. Sabia até que eles, ainda menos do que elas, conheciam o que ele conhecia.
Isto porque ele vivia durante o dia e durante a noite, sem um único intervalo.
Vivia, portanto, o dobro das pessoas e até quase o dobro de alguns animais mais dorminhocos que ele bem conhecia.
Ele aprendia mais de noite em casa a escutar do que de dia na escola a estudar.
Ele distinguia o tamanho das gotas da chuva que disparavam em queda-livre contra o chão do seu quintal. Sabia até os segundos da frequência das suas aterragens.
Agora ouve mal, está velho e não tem companhia.
Ele, que até distinguia todos os passos das pessoas que conhecia, agora mal consegue ouvir a campaínha.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

O Concurso


Quando era pequenina tinha ganho um concurso.
Não daqueles concursos de televisão nem passatempos de casa infantis, ganhou um que ultrapassava todos esses e lhe deu o melhor prémio possível. Não Nintendos nem Castelos de Barbies.
O concurso parecia simples.
Encostada a uma cama de hospital com Febre Aftosa em estado avançado, sem defesas e à porta da morte, tinha que aguentar não chorar para ganhar aos outros meninos na mesma situação.
Esteve 21 dias internada e ganhou a todos que entravam, que saiam e que morriam.
No final a equipa que a tratou perguntou-lhe como tinha conseguido, além do milagre da vida, o carrego da dor.
Ela, tímida, sorriu e perguntou o que tinha ganho. Ao que o médico, ditador do concurso, lhe respondeu: "Ganhaste a vida".
Ela, imediatamente, entrou em pranto, sem perceber porque o médico a tinha enganado. Tanto esforço...para nada.
"O que é a vida? Eu não posso brincar com a vida nem às vidas... Quero um brinquedo!".
Por mais que lhe tentassem explicar, só mais pranto lhe conseguiam arrancar.
Depois de deixar o hospital, quando as empregadas foram fazer as camas de lavado, deram com o colchão todo desfeito, por baixo do lençol intacto que camuflou o sofrimento mudo e em vão daquela estranha criança.
A partir desse dia, a criança chorava todas as noites, gritava, esperneava, batia nela própria e sofria de ataques de ansiedade constantes. Um deles foi tão forte que foi parar novamente ao hospital porque tinha sofrido uma queda bastante aparatosa.
O médico que a atendeu foi o mesmo que a tratou e ela, sem que ninguém prevesse, desatou aos murros e pontapés contra o pobre médico com toda a raiva que a movia.
Levaram-na para a ala psiquiátrica infantil. Lá permaneceu 5 meses. Ao final desses meses, sem qualquer tipo de melhoras, deram-lhe alta, receitando-lhe, no entanto, umas consultas de apoio psicológico semanais, até perfazer mais meia dúzia de meses.
O psicólogo que lhe dava as consultas domiciliárias, resolveu voltar a juntá-la ao médico para perceber a sua reacção e se tinha havido melhoras.
Ela, estática, fingiu que ele não estava lá, mesmo quando ele pegou na cabeça dela à força, obrigando-a a olhar nos olhos. Ela apenas os revirou, qual monstro em estado embrionário.
O médico mandou bom-bons pelo psicólogo. Ela deitou-os ao chão e calcou-os um a um. Com muita calma, já curada da raiva.
Os psicólogos rodavam em frustração, alguns até recusaram imediatamente o caso dela que se constava maligno em todo o hospital.
A menina entrou na escola mas não aprendia nada e ficou 3 anos retida. Esteve até um ano inteiro com uma professora de ensino especial e não mostrava ponta de motivação e desenvolvimento.
Desistiram da miúda que tinha há muito desistido dela própria.
Quando se tornou mulherzinha, interessou-se por um dos milhentos psicológos que a aturavam e partiu logo para a acção. O coitado, estagiário, já assustado com aquele horrível quadro, empurrou-a com a sua força de leão. Ela cai desamparada no chão, bate com a fonte numa esquina da mesa da sala, abre-a e de volta ao hospital. De volta ao mesmo médico que a atende.
Ela parecia bem mas passou uma noite em observações. Observada pelo médico que já tinha a hora de saída expirada e continuava lá ao alto. Quando acordou, de manhãzinha, olhou nos olhos dele e ele pediu-lhe desculpa.
Ela saiu daquele hospital aparentemente curada.
Estudou afincadamente o ensino básico e secundário, ganhou menções honrosas e acabou por escolher o curso de enfermagem. Entrou naquele hospital, na ala pediátrica.
Quando reparava em algum caso parecido com o seu, contava a sua história e conseguia que as crianças tivessem a força que ela teve, sem esperarem nada em troca.
Era a enfermeira que todos os meninos queriam ao lado na dor e ela já os anestesiava de cor.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

MalMeQuer


Anteontem ele recolheu um Malmequer.
Desflorou-o com as palavras "Bem-me-quer ou Mal-me-quer" mas não decorou a última palavra dessa lengalenga.
Voltou ao sítio deles e recolheu outro Malmequer mas, sem se aperceber, colheu dois de uma tirada, um caiu, o outro esqueceu-se de o desflorar porque estava atrasado.
Foi a correr para o jardim junto à Escola e esperou que a sua vizinha mais-que-isso saísse.
Mal a avistou, ergueu sem querer o Malmequer e ela veio de imediato ao seu encontro. Parou junto dele e corou quando olhou para o Malmequer que ele trazia na mão. Ele, tímido, estendeu-o e ela agarrou nele com muita precisão. Despedaçou-o e a lengalenga acabou em Mal-me-quer. Rapidamente atirou o restante talo para o chão e calcou-o com o que parecia um misto de raiva e desilusão. Até assim ela era bonita.
Foram juntos a caminho da eira da avó dela, onde era costume trocarem uns beijinhos mesmo juntinho-aos-lábios.
Ao contrário do que ele esperava, ela não lhe tocou na mão todo o caminho e quando chegaram ao local, entretanto só deles, ela não pronunciou nem um grunhido e fintou extremamente bem e com poucas manobras a sua tentativa de beijinho juntinho-aos-lábios.
Quando começou a escurecer foram para casa sem se olharem e quase sem pestanejarem.
Ele passou toda essa noite acordado fazendo um, dois, três e mais alguns retrocessos em câmara-lenta da recusa que teve, difícil de se contentar e superar.
Depois de mais uns tantos retrocessos sem progressos, achou por bem confrontá-la mal ela saísse da Escola para poder, então, servir-se de, pelo menos, uma explicação.
Depois de nada fazer durante todo o dia, esperou, escondido numa das árvores de tronco grosso do lado de fora da Escola, mais de três horas, o toque de saída. O seu coração já parecia milho-quase-em-pipoca dentro do tacho no impasse da espera e na ânsia do reencontro.
Lá estava ela. Ou parecia ela.
Vestido até aos joelhos salmão com pequenas florzinhas.
Não podia ser ela. Mas parecia ela.
Meias pérola mesmo por baixo dos joelhos e sapatos a imitar as bailarinas, rosa-claros.
Parecia mesmo ela.
Na cabeça uma bandolete pérola com um lacinho de lado, rosa-claro. Toda a combinar.
Só podia ser ela. Ele não queria que fosse mesmo ela.
Vinha tão bonita, risonha, sem jeito, tresloucada... Era ela!
Mas...de mão dada com outro tipo.
Um tipo que estudava... Devia ser melhor do que ele e era, sem dúvida, mais bem aparentado.
Depois de um ano em quase-depressão e depois de árdua e sofrida investigação, descobriu que a relação-maravilha e, até então, estável tinha tido origem num desflorar "Bem-me-quer" de um qualquer, perdido no chão, Malmequer.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Mas Não Páres!


Num ápice o meu corpo estremeceu.
Depois de provado, senti que foi uma mistura de frio, arrepio, calor e dor.
E prazer. Esse, em proporção, ganhou. Sem dúvida.
Estou agora a experimentar outra sensação... Espera... Daquelas em que o som que está fora do nosso corpo se torna tão insignificante que desaparece por causa do turbilhão de emoções lá dentro e só lá dentro arremessadas sem ordenação.
Não me consigo concentrar. Espera...Falaste?
Não fales, continua que hoje estou a gostar de espectar.
Aliás, sei que falas mas já não te ouço....Espera...Assim tenho cócegas. Na barriga não, nas pernas não, nos ombros não...Pára!
Já podes continuar. Lábios...Isso são lábios? São molhados, são ásperos, são secos, são macios...Mas não páres!
Que cheiro é este? Cheira a maresia, a pôr-do-sol, a cortiça...O que é?
Ainda bem que não falaste...Estou a desconcentrar-me...
Gosto quando gemes...só te ouço a ti...e cá dentro e...hoje fica aqui!
Dorme cá, pode ser? Mas não páres!
Já estou a confundir tudo, as sensações, as cores, os cheiros, os sons...Gosto quando gemes...só te ouço a ti...e cá dentro...o que é isto?????
Ok, pára...agora está sensível...
Abraça-me para perceber se é real, se estou ou não invisível... Não sinto as pernas, não sinto a barriga e os pés e as coxas...

sábado, 3 de janeiro de 2009

Domingos


O cigarro sempre ligado no mínimo deitado sobre o cinzeiro de cobre.

A secretária a arrotar papéis gatafunhados e a vomitar livros em lista de espera.

Um cheiro a pó com tabaco rasca cobre a casa que só dá guarida ao Domingos.

Irónico ter o nome do dia da semana, para ele, mais detestável.

Além desta casa, estava igualmente na casa dos quarenta, casa a abarrotar de gente que ele não conhece nem tenciona conhecer.

Bem parecido mas propositadamente mal arranjado, só sai de casa para comprar jornal, tabaco e para os necessários almoços e jantares no restaurante do seu condomínio.

Filho de um pai abastado, Domingos nunca precisou nem quis trabalhar e sempre se revoltou com as injecções culturais a que os pais o obrigaram desde cedo. Preferia as vacinas.

Pai escritor e mãe pintora, compareciam a tudo o que era evento cultural com o rebento atrás. Este, de seguida, ainda a mal saber escrever, tinha que entregar na semana seguinte um relatório critorioso e bem elaborado da visita, com direito a classificação rígida após atenta correcção de ambos os pais.

Aguenta até aos vinte e um em casa destes dois e quase a fazer vinte e dois, foge para longe do mundo cultural.
Inicia uma vida nova com amigos novos, televisão a cores e cinema de filmes comerciais. Nem um ano tinha passado quando percebeu que não conseguia manter amizades devido ou aos seus silêncios prolongados ou às suas conversas demais complexas.

Seguiram-se os cigarros, jornais e refeições que serviam de intervalo à leitura desenfreada e posterior escrita empenhada.

Hoje está no sofá. Ao lado, uma linda menina acompanhante de luxo que o acompanha, pela primeira vez, desde o ano em que tentou ser como os outros. O único ano da sua vida em que não esteve em abstenção.

Hoje está no sofá. Ela despe-se, ele retrai-se. Ela ri, ele chora. Ela tenta banalizar o sucedido com falinhas pouco estudadas, ele paga e acompanha-a à porta.

Irónico ter sido acompanhante de uma acompanhante de luxo.

Sentado no sofá decide, então, morrer como sabe viver.

Mas só acaba por falecer aos oitenta e um anos, vítima de um AVC. Embora conhecesse de cor todos os sintomas, foi exactamente por isso que se sentiu feliz pela primeira vez na vida e, se quis deixar morrer.

Irónico o AVC do Domingos ter sido Aversão à Vida Completa. Mas só as iniciais constaram na certidão de óbito do homem que, sem nunca o básico ter aprendido, só soube ler e escrever.

sábado, 27 de dezembro de 2008

Casa da Magia


Lá dentro havia seda, havia algodão e havia linho.

Lá dentro havia ouro, havia prata e havia platina.

Lá dentro havia riso, havia sorriso e havia felicidade.

Lá dentro havia tudo de espectacular e tu não passavas perto da porta.

Nem sequer rodeavas, nem sequer uma ponta de curiosidade e eu roía-me só de magicar como tal seria possível.

Tudo o que toda a gente desejou, em todos os tempos, estava ali. E tu aqui, sem mexeres nenhuma parte de ti.

A explicação estava contigo e mais ninguém. Eras o único da aldeia que nunca tinha sequer espreitado a casa de magia. E não era uma magia qualquer, dessas que são inventadas e nos tapam os olhos, era uma magia real e única.

Estudiosos davam voltas ao que tinham e não tinham para descobrir tal fenómeno mas todos os estudos foram inconcluídos por escassez de dados concretos.

Pedi-te uma vez que fosses lá comigo e, sem resposta, desapareceste durante três semanas.

Pedi-te outra vez que me levasses só a espreitar, com a desculpa do medo e, sem resposta, desapareceste durante três meses.

Perguntei-te, então, se a tal casa teria sido obra tua e, sem resposta, desapareceste durante três anos.

Esta rotina matou-me e os teus afastamentos apunhalaram-me já cadáver.

Já passou um ano desde a tua última aproximação, que recusei, e hoje não sei nada sobre ti. Também fugi. Mas nem a campaínha nem o telefone me contaram mais nada. E eu, cadavér, continuo aqui. Ninguém me leva para a morgue para me fazerem festinhas com o bisturi...

Enquanto espero ou te espero, vou dormir mais um sono de morte.


(Serei, pelo menos, a tua Bela Adormecida?)

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

O Casamento


O sono dela despertou em tons de roxo-funeral.

O sonho tinha-lhe oferecido, de bandeja, violentos seres em formato de perseguição.

O relógio da igreja ainda não tinha contado as 7h, já ela preparava o pequeno-almoço para ele: o mesmo de há 38 anos: sumo de laranja e torradas a verter manteiga. Arrumava o tabuleiro dele e contentava-se com um naco de papo sêco que a padeira acabava de deixar na maçaneta da porta.

Nisto, já eram horas das compras, sempre com as quantias conversadas e todas as contas bem feitinhas, desde dia anterior.

Durante todo o percurso ela não olhava nada nem ninguém de frente. Principalmente ninguém, segundo ele, todos os homens a desejavam e todas as mulheres a odiavam. A parte das mulheres ela acreditava porque a última mulher que tinha tentado um diálogo com ela, tinha-lhe dito, com toda a lata, que ele andava com uma qualquer da vila, o que era impossível visto que se tratava do "seu" marido.

Chegada a casa, lá preparava o almoço, muito devagarinho, para se poupar no gás.

Ele voltava do único trabalho digno que conhecia (sapateiro) e comia, igualmente devagarinho, para não se entalar e fazer bem a digestão, sempre com ela ao alto, não fosse o caso de precisar de algo.

Depois de ele regressar ao trabalho, ela comia bem rápido, sempre ansiando que ele não voltasse atrás, já que esta era a única altura em que ligava um bocadinho a TV, que só se acendia quando o benfica jogava, não fosse tal bocadinho subir a conta da luz que pagavam certinha, sem acertos, há 38 anos.

A tarde dela era dedicada aos arranjos de costura que as suas clientes traziam todas as semanas, umas senhoras ricas com quem ela nunca falava, não fossem elas abusar da confiança.

Seguia-se o jantar no mesmo tom do almoço sem a parte consolativa da TV.

Depois de arrumar a cozinha, era a vez do banho de imersão "da sexta-feira", único dia da semana com direito a banho completo seguido da habitual meia-hora de violação consentida de boca mais muda que tapada.

Ela não gostava das sextas-feiras.

O resto dos dias eram mais calmos, sem banho comprido nem desespero sofrido.

Apenas o silêncio, lado a lado, de um casamento bem conseguido.