terça-feira, 15 de julho de 2008

Lixo


Estilhaços de madeira voam pelo ar

A brisa na viela torna-se fluorescente e rasga o olhar de quem passa

O mar torna-se longuínquo e nunca mais ninguém o viu

As casas encavalitam-se umas nas outras qual é o medo de morrerem sozinhas

Os seres transformam-se em bonecos de papel e voam como aviões de brincar

É tudo lixo

E não fica cá ninguém para reciclar.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Abóboras


Quando o mar subiu e o sol se ia afongando lentamente, senti a brisa apagada da tua presença.

Uma presença seca, áspera e crua que não me serve de contentamento.

O sol finalmente deixou de respirar por hoje e entro sozinha na minha cabeça vazia.

Desperto porque ao longe vejo uma parka verde e uns pés descalços. Sim, até daqui parecem descalços. Volto a cabeça como sinal de desinteresse.

Sinto algo a aproximar e temo por segundos. O cão é engraçado mas nunca gostei que me cheirassem.

Um cão bem cuidado mas rafeiro. Um cão perdido ou... o teu cão. Não quero que seja teu. Não quero mesmo.

Passas em marcha lenta por detrás e chamas o canino num som que mais parecia uma consoante só.

Eu não me mexo nem com tamanha curiosidade da percepção da tua imagem.


- Esteve um lindo dia!


(Ups, e agora?)


Rodo a cabeça uns 45 graus para não parecer muito e aceno com a cabeça.


- Amanhã estará igual. Costumo não errar! - afirmas convicto demais.


- Sim, é capaz... Boa tarde. - respondo, desacreditada e como forma de antecipar a despedida.


- Tenha uma boa noite e desculpe a intromissão dos dois.


- De nada.


(e esqueci-me do obrigada... e do igualmente...)


Enfim sós, novamente, com a cabeça entre as pernas doridas e com as mesmas pernas a rodear esta abóbora agarrada ao corpo. Que incha, desincha e só passa quando durmo e ela se tranforma em cinderela.

Está escuro mas não tenho medo. Tenho mais medo que me levem o carro do que a mim.

Chego ao carro que deixei propositadamente a 1 km para cansar ainda mais estas duas que me seguram. Tudo para apagar a vida real mais cedo quando for hora de me deitar.

Fumo meio cigarro o mais devagar que consigo e antes de arrancar lembro-me que amanhã o dia vai estar igual.

A imagem de ti ecoa durante uns segundos, poucos mas os suficientes para me convencerem a voltar amanhã. Acho que sim... mas só se o tempo estiver bom.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Não sei dizer...


Não sei explicar. Não sei dizer...

Os olhares são todos iguais. Os de interesse, os de desinteresse, os desprezíveis, os apetecíveis...

O teu não sei explicar. Não sei dizer...

A beleza resume-se às combinações ou da totalidade do bonito, normal e feio.

A tua não sei explicar. Não sei dizer...

A inteligência existe ou não existe, tem subtipos e são todos mensuráveis.

A tua não sei explicar. Não sei dizer...

Porque sinto que vou gostar demasiado de ti.

Porque sinto que vais gostar de me conhecer...

Não sei explicar. Não sei dizer...

Vou ficar aqui à espera do tiro de partida para corrermos a corrida mais longa em resistência, inventada por nós, lado a lado, até cortarmos a meta empatados.

domingo, 20 de abril de 2008

Eles os Dois


Ela -Sabes o que era bom agora? (enroscando-se nas pernas dele)

Ele - Hum... Não sou bruxo...

Ela - Que me preparasses o pequeno-almoço...Estou tão doentinha...

Ele - Sabes o que era bom agora? (afastando-a ligeiramente)

Ela - Também não sou bruxa...

Ele - Que me deixasses dormir mais uma hora porque é domingo e porque eu mereço com a semana que tive. Não imaginas o que é trabalhar! Pára com esse tipo de choraminguices e deixa-te de armar em vítima. Se estar com o período é doença, mais de metade da população mundial faltava pelo menos 3 dias por mês. (vira-se de costas)

(ela levanta-se, come qualquer coisa à pressa, e sai preparada para correr)

(ele levanta-se passada uma hora e meia, toma duche e vai para o sofá ver televisão)

(são 14h, ele continua à espera)

(são 16h, ele vai preparar alguma coisa para enganar o estômago)

(são 18h, ele recebe um telefonema da sogra em gritos mudos a dizer que a mulher foi atropelada na passadeira a 200 metros de casa e que tinha sofrido um traumatismo craniano)

(são 19h, ele pega no carro e vai à passadeira onde tudo aconteceu e olha para ela, sem ver, sem pensar, sem nada)

(são 21h, ele está na sala de espera do hospital e sem esperar o médico disse-lhe sem voz que ela não resistiu)

(são 23h, ele vai para casa, depois de tratar das formalidades injustas de uma morte)

(são 00h, ele toma o frasco todo de ansiolíticos da mulher)

(são 15h, ele não comparece ao funeral da mulher)

(são 15h do dia seguinte, ele vai a enterrar).

domingo, 9 de março de 2008

Adélia


Adélia era o nome dela.
29 verões completados, sofria de enxaqueca crónica e de fobias inesplicáveis.
Todos os dias antes de se deitar corria o mesmo ritual e se fizesse alguma coisa diferente das outras noites, voltava para trás e com a paciência que a caracterizava, começava tudo do início.
Ligar não mais de 3 minutos ao namorado para se despedir, beber leite com Cola-Cao light, lavar a cara, os dentes, hidratar a pele e os lábios, desfazer a cama cuidadosamente e ver não mais de 15 minutos o filme do momento na rtp1. Numa noite dessas tinha tido um pesadelo enorme: estava grávida.
O namorado quando soube procurou logo outro alvo de engate, em 2 dias engordou 5 quilos, as estrias atacaram toda a sua pele, borbulhas enomes cravaram-se na cara, os enjoos eram de morte e num grito de sufoco, acorda com taquicardia e a enxaqueca explodiu.
Os pais correram com ela para o hospital e os médicos apenas fizeram umas análises para não a mandarem logo embora.
No final disseram aos pais que não a iam medicar devido ao estado dela.
Grávida de quase três meses, Adélia soube assim a sua sina.

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Demónio


Dentro da aldeia todos lhe chamavam "Demónio".
Um rapaz de olhos negros, cabelo seco quase gretado, mãos escuras de lixo e boa disposição sem causa aparente.
Todos os dias saía às 7h e voltava às 19h.
Ninguém sabia para onde ia durante esse tempo e ninguém nunca se preocupou em saber.
Morava numa cabana feita de madeira quase desfeita mas nenhuma frincha trespassava para o interior.
Ninguém sabia como vivia e nunca ninguém se preocupou em saber.
Quando o bom tempo ameaçou a aldeia, todos tinham o hábito de tomar a primeira refeição do dia do lado de fora das casas.
O Demónio passou a fazer o mesmo dias e dias a fio até que um menino deu pela presença dele e sentava-se a seu lado sem falar.
Quando batiam as 7h lá ia ele de caminho incerto pela estrada principal.
Outros dias correram e num igual aos outros o menino que não falava resolveu segui-lo.
Depois da encosta havia um rio onde ele tomou banho e lavou as roupas, na mão um saco com uma muda de roupa nunca vista pelo menino, cara, da boa.
Mais 1h50 em caminho principal e chegou à cidade.
Entrou num edifício novo, grande, com muitos vidros e o menino contou 6h até o Demónio voltar a sair.
Caminho inverso, muda de roupa velha, já seca e de volta a aldeia.
O menino nunca falou.
Ninguém sabia para onde ele ia durante esse tempo e alguém se preocupou em saber.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Eles


Ele - Queres vir até à ponte?

Ela - Levas-me no quadro ou tenho que levar a minha?

Ele - Posso-te levar...

Ela - Mas eu sou pesada e tenho medo de andar rápido!

Ele - Então trás a tua. Despacha-te!

Ela - Despacho nada, ainda demoro a ir buscá-la e depois também não vais ao meu ritmo e fico para trás. Não vou.

Ele - Eu espero por ti mas vai lá rápido!

Ela - Estás a ver? Não consegues esperar. Já está em ti. Agora é que não vou!

Ele - Então vou sozinho. Só me chateias!

Ela - Se prometeres que esperas, eu vou então...

Ele - Se prometeres que vais buscar rápido o raio da bicicleta...

Ela - Até já.

Ele - Assim está melhor.

Ela - És mau. Que coisa!

Ele - E tu és parvinha todos os dias! (rrrrr)


quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Avô


Era Janeiro.

Fazia calor e o tempo estava encoberto.

O vento abanava bastante as velas do barco que se via ao longe.

A maré estava irritada e as ondas tinham compasso apressado.

Era quinta-feira.

Era o dia do avô levar o neto a pescar.

Nas rochas maiores e mais lisinhas lá estavam eles.

Com a felicidade que só traziam uma vez por semana.

Com a cumplicidade que só o mesmo sangue consegue.

O avô estremece, estremece e cai na água.

O neto vai atrás mas volta sem ele.

Era o melhor funeral que lhe poderiam dar.

Foi o dia do neto levar o avô a pescar.

sábado, 29 de dezembro de 2007

Sonhos


Sonhos...
Dizem que sonhar faz bem, eu constato que faz mal.

Viver em mundos fantasmagóricos com pitadas de realidade...

Parar, imóvel, rodeada de atitudes que detesto das pessoas que gosto...
Fazer figuras ridículas em lugares que não existem com pessoas que conheço, mas que não fazem sentido ali estar.
Ver morrer pessoas ou ver cair-te os dentes todos ao espelho...
Acordar e pensar que devia estar bem-disposta, que um sonho não devia incomodar o dia...

Lembrar-me que a sociedade tem a mania de interpretar e legendar tudo...

Por vezes divagar durante mais um bocado de tempo se aquilo poderá acontecer, mas depressa punir-me ainda mais por pensar isso...
O melhor mesmo é fazer de conta que é tudo lindo e maravilhoso.

Que quando me deitar vou sonhar com um massajador olímpico numa maca de algodão a fazer-me cócegas nos pontos específicos dos pés que conectam directamente com o bem-estar de todos os órgãos e acordar feliz!

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Contradição


Palavras que soam como furacões.

Gritos em alta entoação mas vazios de emoção.


Gestos de desatino e loucura.


Olhos que nem se tocam.

Expressões fugidias de compreensão.


Desejo irreal inesperado.


Sensações de contradição.


Suores validos,...

pensamentos em deglutinação.

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Sol


Como um raio de sol.

Apenas um.

Dividido de todos os outros e dirigido apenas a mim.

Foi isso o que senti quando me deste a primeira montra de ti.

Agora aguardo, calmamente, que apetreches a minha com a tua luz.

Assim como quem cuida sem querer, sem intenção mas por amor.

Assim como quem só se apercebe depois...

do tamanho gigantesco do sol que vai alimentando.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Tempo de Partilha


Neva lá fora e há granizo cá dentro.

Os ponteiros do relógio já estão presos pelo tempo e mal funcionam. Atrasam todas as semanas 17 minutos e existem semanas que nem mexo neles.

Se fosse a gerir esse tempo que sobra, acho que não faria nada diferente.

Sou assim, quando tenho oportunidades nunca sei aproveitá-las por mais que tente, e de noite todas elas me beliscam a sério. Todas as "santas" noites.

O cobertor que tenho nas pernas já desfiou o que conseguiu e eu deixei. É como nós, vai até onde nos deixam ir...

A árvore de Natal já não avisto há 3 anos. Morreu queimada quando incendiou a raiva que tenho pelo egoísmo deste "tempo de partilha". "Homem que é homem alimenta os pobres NO NATAL"!

A TV só passa "Natais nos Hospitais" e "Tardes da Júlia" reforçadas com bolas de natal e choro para não variar.

Já se faz tarde, não sei ao certo quão, mas vou deixar-me ser beliscada um bocadinho para descansar.


terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Até Amanhã


A almofada acorda-te a roer o pescoço.
Uma dose de moleza numa manhã que arrota de tráfego.
Vais devagar quando devias ir a planar e mal chegas ao trabalho acompanhas o passar de todos os minutos, no lado inferior direito do monitor, até às 12h30.

Almoças sozinho na tasca rasca e mais familiar para ti, de maneira a não parecer que estás sozinho, mesmo estando, e sabes que as pessoas novas lá vão todas pensar isso.

Aniquilas o fumo do cigarro na zona do lado direito onde está a senhora que se mostra sempre incomodada, mas que todos os dias faz questão de tocar a sineta para te lembrar isso.

Voltas para o trabalho e para variar desta vez tentas só olhar para o relógio do telemóvel porque custa sempre menos a passar o tempo, e aproveitas para ver se eventualmente terás algum contacto meu.

Chegas a casa e aqueces um "Sparguetti à Carbonara" daqueles que comíamos juntos quando a vontade de nos termos superava a vontade de comermos.

Vês os "Prós e Contras" e adormeces no sofá.

Acordas já as galinhas estão a preparar o almoço e procuras a cama com um olho aberto e outro fechado.

No caminho lembras-te do telemóvel para pôr a despertar (ou para me procurar).
Não tens nada meu mas também não fazes por isso.
Sabes que nunca terás e desistes de pensar nisso...mas só até amanhã.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Porquê?


Porque é que a minha voz falhou quando apareceste?

Porque é que as minhas mãos gelaram quando nos olhámos?

Porque é que mesmo sem te confrontar, queria-te?

Porque é que o nosso longe ficou perto?

Porque é que tem que ser assim?


Tu aí e eu aqui...

domingo, 9 de dezembro de 2007

Não Acaba


Uma luz que se apaga
Um sono não concretizado
Um acto irreflectido
Onde a noite não acaba.

O sol que nasce
Uma toalha no chão
Um sentimento perdido
Uma noite em vão.

Um rasgo de ti
Uma lembrança apagada
Um dilema infinito
Neste dia que nunca acaba.