quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

O Casamento


O sono dela despertou em tons de roxo-funeral.

O sonho tinha-lhe oferecido, de bandeja, violentos seres em formato de perseguição.

O relógio da igreja ainda não tinha contado as 7h, já ela preparava o pequeno-almoço para ele: o mesmo de há 38 anos: sumo de laranja e torradas a verter manteiga. Arrumava o tabuleiro dele e contentava-se com um naco de papo sêco que a padeira acabava de deixar na maçaneta da porta.

Nisto, já eram horas das compras, sempre com as quantias conversadas e todas as contas bem feitinhas, desde dia anterior.

Durante todo o percurso ela não olhava nada nem ninguém de frente. Principalmente ninguém, segundo ele, todos os homens a desejavam e todas as mulheres a odiavam. A parte das mulheres ela acreditava porque a última mulher que tinha tentado um diálogo com ela, tinha-lhe dito, com toda a lata, que ele andava com uma qualquer da vila, o que era impossível visto que se tratava do "seu" marido.

Chegada a casa, lá preparava o almoço, muito devagarinho, para se poupar no gás.

Ele voltava do único trabalho digno que conhecia (sapateiro) e comia, igualmente devagarinho, para não se entalar e fazer bem a digestão, sempre com ela ao alto, não fosse o caso de precisar de algo.

Depois de ele regressar ao trabalho, ela comia bem rápido, sempre ansiando que ele não voltasse atrás, já que esta era a única altura em que ligava um bocadinho a TV, que só se acendia quando o benfica jogava, não fosse tal bocadinho subir a conta da luz que pagavam certinha, sem acertos, há 38 anos.

A tarde dela era dedicada aos arranjos de costura que as suas clientes traziam todas as semanas, umas senhoras ricas com quem ela nunca falava, não fossem elas abusar da confiança.

Seguia-se o jantar no mesmo tom do almoço sem a parte consolativa da TV.

Depois de arrumar a cozinha, era a vez do banho de imersão "da sexta-feira", único dia da semana com direito a banho completo seguido da habitual meia-hora de violação consentida de boca mais muda que tapada.

Ela não gostava das sextas-feiras.

O resto dos dias eram mais calmos, sem banho comprido nem desespero sofrido.

Apenas o silêncio, lado a lado, de um casamento bem conseguido.

6 comentários:

O Rapé disse...

Ao menos não lhe bate!!!... apesar de que aquele roxo-funeral deixa-me desconfiado.

info-excluído@pessoa disse...

Apetece que eles fujam, sobretudo ela, não é?
Hoje li mais alguns textos teus e fui sentindo isso por aqui e por ali.
Apetece que muita daquela gente possa fugir um pouco, muito não, porque nesse caso ainda se desencontravam mais, digo eu, que, mais uma vez, só cá vim ver bola.

Tari disse...

Rapé:

Não sei o que é pior em termos de violência.

Mas o cúmulo neste texto está nos hábitos e nas habituações "cegas" que as pessoas criam e/ou sujeitam-se.

O roxo-funeral era para dar a ideia de uma violência psicológica sempre presente.

Ainda bem que desconfiaste :P

Beijinho*


Info-excluído:

Apetece que toda a gente fuja para um mundo melhor. Mais não seja um mundo criado por cada um para cada um.

Quanto à generalidade dos textos, não consigo falar porque cada história é particular mas tento sempre mostrar um bocadinho as coisas más que nos rodeiam. E há textos (menos mas alguns) em que pretendo o contrário.

Espero que tenhas ficado cómodo no teu lugar de espectador ;)

Beijinhos**

Anónimo disse...

Este casamento já é quase terrorismo psicológico...
A última frase diz tudo.

Lembrei-me de...

"Cold silence has a tendency to atrophy any sense of compassion between supposed lovers"

A música que ouço não passa na rádio lol mas esta frase tem tudo a ver. não? :P

Bjs
Corto

Espanta Sono disse...

Silêncios que conseguem alimentar vidas.

Tari disse...

Corto:

Sim, tudo a ver mesmo ;)

Também considero terrorismo psicológico, completamente...

Beijinhos**


Espanta Sono:

Bem-vinda ao blog.
Espero que tenhas gostado.
Alimentar sim mas no mau sentido.
Ainda bem que não tinham filhos!

Beijinhos**