quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

MalMeQuer


Anteontem ele recolheu um Malmequer.
Desflorou-o com as palavras "Bem-me-quer ou Mal-me-quer" mas não decorou a última palavra dessa lengalenga.
Voltou ao sítio deles e recolheu outro Malmequer mas, sem se aperceber, colheu dois de uma tirada, um caiu, o outro esqueceu-se de o desflorar porque estava atrasado.
Foi a correr para o jardim junto à Escola e esperou que a sua vizinha mais-que-isso saísse.
Mal a avistou, ergueu sem querer o Malmequer e ela veio de imediato ao seu encontro. Parou junto dele e corou quando olhou para o Malmequer que ele trazia na mão. Ele, tímido, estendeu-o e ela agarrou nele com muita precisão. Despedaçou-o e a lengalenga acabou em Mal-me-quer. Rapidamente atirou o restante talo para o chão e calcou-o com o que parecia um misto de raiva e desilusão. Até assim ela era bonita.
Foram juntos a caminho da eira da avó dela, onde era costume trocarem uns beijinhos mesmo juntinho-aos-lábios.
Ao contrário do que ele esperava, ela não lhe tocou na mão todo o caminho e quando chegaram ao local, entretanto só deles, ela não pronunciou nem um grunhido e fintou extremamente bem e com poucas manobras a sua tentativa de beijinho juntinho-aos-lábios.
Quando começou a escurecer foram para casa sem se olharem e quase sem pestanejarem.
Ele passou toda essa noite acordado fazendo um, dois, três e mais alguns retrocessos em câmara-lenta da recusa que teve, difícil de se contentar e superar.
Depois de mais uns tantos retrocessos sem progressos, achou por bem confrontá-la mal ela saísse da Escola para poder, então, servir-se de, pelo menos, uma explicação.
Depois de nada fazer durante todo o dia, esperou, escondido numa das árvores de tronco grosso do lado de fora da Escola, mais de três horas, o toque de saída. O seu coração já parecia milho-quase-em-pipoca dentro do tacho no impasse da espera e na ânsia do reencontro.
Lá estava ela. Ou parecia ela.
Vestido até aos joelhos salmão com pequenas florzinhas.
Não podia ser ela. Mas parecia ela.
Meias pérola mesmo por baixo dos joelhos e sapatos a imitar as bailarinas, rosa-claros.
Parecia mesmo ela.
Na cabeça uma bandolete pérola com um lacinho de lado, rosa-claro. Toda a combinar.
Só podia ser ela. Ele não queria que fosse mesmo ela.
Vinha tão bonita, risonha, sem jeito, tresloucada... Era ela!
Mas...de mão dada com outro tipo.
Um tipo que estudava... Devia ser melhor do que ele e era, sem dúvida, mais bem aparentado.
Depois de um ano em quase-depressão e depois de árdua e sofrida investigação, descobriu que a relação-maravilha e, até então, estável tinha tido origem num desflorar "Bem-me-quer" de um qualquer, perdido no chão, Malmequer.

5 comentários:

Espanta Sono disse...

Há coisas que preferimos nem saber.

Anónimo disse...

Neste adoro a simplicidade da descrição, tão natural :)

beijinho, Corto

Tari disse...

Espanta Sono:

É verdade mas a curiosidade, por vezes, costuma ser mais forte...

Beijinhos**

Corto:

Obrigada pelo elogio. Está simples, sim ;)

Beijinhos amigo**

Woody disse...

Gostei muito da explicação à Alberto Caeiro para o final da relação... Mais não comento, porque a estória diz tudo...

info-excluído@pessoa disse...

As tuas histórias são sempre interessantes, e esta não é excepção.
Como diz o anonimo, nota-se a simplicidade da descrição, que às vezes é o que tem mais força.
Mesmo assim, esta não é das que mais gosto.

P.S. já expliquei no texto, e nos comentários,o queria dizer com 'blog de gaja', que não estava claro.
Ciao